segunda-feira, 25 de abril de 2011

Não se pode falar do silêncio

como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem ouviu não diz. Há uma maçonaria no silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem palavras.
Mas esse primeiro silêncio, Ulisses, ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra e da Lua. Então ele, o silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta, cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Mas isso os da maçonaria sabem. Quantas horas perdi na escuridão supondo que o silêncio te julga.

Pág 37 - O livro dos Prazeres (Clarice Lispector)

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